Eu amo a minha casa.
Amo muito. Se pudesse não saia de casa, tudo o que precisasse
estaria aqui, mas isso é utopia então vamos fingir por um momento que eu não
sou um caramujo.
O caso é que gosto tanto da meu cantinho porque aqui fico a
vontade, de pijama o dia todo, fazendo (ou não) minhas coisas, com tudo a mão e
esse é um dos motivos d’eu não visitar tanto as casas de amigos ou conhecidos.
Esse é o primeiro deles, o segundo é que eu morro de medo de
incomodar quem quer que seja, mesmo quando de um convite dado de coração, tenho
receio de incomodar a pessoa com meus hábitos e minhas restrições.
Tenho alguns problemas de saúde que me impedem de comer
qualquer coisa e me obrigada a ter certas rotinas diárias e dieta, então não
gosto que alguém se sinta obrigada a ter isso à disposição pra mim, mesmo se
oferecendo e me convidando.
Ainda outro motivo é um trauma de infância que me fez
perceber que nem sempre um convite quer dizer que alguém queira realmente que
você freqüente sua casa.
Quando eu tinha uns 11 ~ 12 anos, recém chegada do interior
onde morei dos 4 aos 10 anos, fiz amizade com duas irmãs mais ou menos da minha
idade: Tati e Lu.
Eu me dava melhor com a Lu por sermos mais parecidas em
assuntos e comportamento, a Tati era mais ‘mocinha’, ‘menininha’, ‘delicadinha’
e como eu sempre fui... erm, eu, não tinha tanto papo com ela, mas gostava de
conversar quando estávamos perto porque nunca fui do tipo de isolar alguém num
bate papo.
Mesmo achando que ela
não ia com meus cornos... o.o’
Enfim, algumas tardes as visitava em casa, porque morava com
meus avós e acreditem, não havia NADA pra se fazer na casa deles, na época nem
TV em casa meus avós tinham, por isso não as convidava pra me visitarem ao
invés de ir até a residência delas.
Então algumas vezes eu ia até lá pra conversar e brincar um
pouco. Numa das vezes estavamos conversando na cozinha quando a mãe delas
(outra que aparentemente nunca foi com meus cornos) comentou pras filhas ‘sobre
fazermos poucos os passos na casa do próximo pra que ele não venha a nos odiar’.
Sim, conhecia esse texto, e sim, eu sabia que era uma
(in)direta pra mim porque ela sabia muito bem que eu conhecia o texto.
Me senti com uma pedra no estomago aquele dia, a sensação
ruim de estorvo, mesmo nunca aceitando almoçar ou lanchar, evitando passar muitas
horas por lá, respeitando horários e limites e até volume de voz eu sempre tive
o cuidado de controlar... Mas claro que não bastou, pelo jeito estava passando
tempo demais em companhia das filhas dela (até então as únicas amizades que
havia feito recém chegada da cidade onde morei) e desde esse dia só voltei à
casa das duas pra levar ou receber algum recado ou pra algum tipo de reunião.
Acredito que a mãe
delas era uma adulta infeliz sem tato que devia tomar mais cuidado ao falar
sobre as regras da casa na frente de uma criança, pois se não me queria lá,
podia conversar com as filhas e aos poucos as duas me afastariam. Seria pelo
menos humilhante pra mim, embora não menos triste.
A segunda vez foi durante uma visita a casa do meu pai, onde
ele mora com a segunda esposa. Estávamos eu e minha irmã fazendo criancices (eu
com oito anos e ela com 13), pulando no sofá, ok, admito que passamos do
limite, mas da maneira infantil que víamos estávamos na casa do meu pai também.
Obviamente a filha da segunda esposa, da
idade da minha irmã, não achava assim. Ela nos olhou feio e disse pra pararmos,
pois não estávamos na nossa casa pra fazer o que quiséssemos.
Nunca contei pro meu pai o que ela fez, acho que ele não se
interessaria pela maneira como éramos tratadas de modo geral, já que se morava
ali agora era porque havia trocado a nossa família por aquela.
Depois dessas experiências desagradáveis passei a controlar ainda
mais as visitas a amigos e quando convidada eu até apareço, mas tento passar
por invisível mesmo, dar o mínimo de trabalho e voltar logo pra minha casa, onde
sei que não serei um estorvo.
Exatamente por isso fico tão incomodada com visitas mal
educadas e por causa do trauma não consigo dizer umas boas verdades pra essas
pessoas quando elas são desagradáveis debaixo do meu teto.
É minha máxima não maltratar alguém que esteja entre minhas
paredes, pois sei o que é ser maltratada estando em casas alheias, por essa
mulher, pela filha da segunda esposa do meu pai... traumas, traumas.
Por manter o hábito de tratar decentemente as pessoas que me
visitam, já tomei muito na cara: Já tive meus móveis chamados de ‘merda’ por
uma burguesinha morta de fome da zona sul, que inclusive já me havia mandando
enfiar minha almofada no... vocês sabem onde. O que ignorei prontamente pra não
humilhá-la mais do que a vida já se encarregou de fazer.
Já tive uma asiática mal educada cobrando a agilidade no meu
esposo na cozinha, durante um final de ano de calor insuportável no Rio, quando
ele cozinhava o jantar pra todo mundo e ainda fazia intervalos levando suco, sorvete
e lanches pra gente. A criatura rinocerônica teve a pachorra de ir até a cozinha,
olhar no relógio e dizer ‘Tô com fome, Guilherme, vamo! Tá demorando!’
E só soube disso
depois que ela sugeriu que eu não servia pra ser mais amiga, então meu esposo
me contou essa pérola de educação dela aqui na minha casa, onde a recebemos
mais de 4 vezes! Educação definitivamente é artigo de luxo que quase ninguém
compra esses dias.
A última vez que passei por aborrecimento foi recentemente,
onde recebi alguém que tardiamente soube que não gosta de mim. Vejam bem, a
pessoa visitou a minha casa, me fez perder tempo, cozinhar, tentar agradar
(mesmo passando por uma crise de dor) e não gostava de mim. Sério, essa eu
quero esbofetear muito.
Quem me conhece, que é amigo intimo mesmo, eu convido pra
minha casa e se convidei... colega! Você é muito querido! Porque não abro
minhas portas pra qualquer pessoa e quando abro, tenho por hábito tratar muito
bem.
Invento de cozinhar, tento manter a pessoa confortável,
fazer compras... e o Guilherme é ainda mais hospitaleiro do que eu o que torna
tudo ainda mais receptivo pra quem nos visita.
Então, creio que se a pessoa não vai com a minha cara, pra
que se dar e me dar (principalmente) a esse trabalho? E justamente depois d’eu
prometer a mim mesma que nunca mais receberia gente estúpida em meu lar?
Lar é um lugar sagrado, é onde se repousa, medita, cuida da
vida... entrar na casa de alguém quando não gosta dessa pessoa é deturpar o
lugar, é fazer com que ela engula sua presença no única lugar onde ela se
protege de gente como você.
Então, a tia Fran da uma dica de ouro: Se não vai com os
cornos da pessoa, faça como eu – Não a visite. Não coloque os pés em sua casa,
não a obrigue a suportar seu comportamento desagradável e sua presença
dispensável.
Resolvi postar esse assunto porque recentemente estava lendo
uma revista Época com dicas de como se comportar na casa dos outros, durante
visitas de férias, e me lembrei desse episódio... Como sei que são dicas
preciosas e que todos deviam seguir, vou postar aqui pra vocês e acrescentar
algumas de minha autoria:
O que Fazer na Casa dos Outros:
1 – Tratem a casa dos outros como um palácio, não deixem o
banheiro molhado ou cheio de cabelo na pia, cinzeiros sujos (ou não fumem na
casa se os moradores não forem fumantes), não sentem nos braços do sofá, não
subam em camas ou sofás de tênis ou sapatos, não larguem copos ou pratos em
todos os cantos, arrumem sua próprias camas, não sentem em bancadas de cozinha
ou outros lugares que obviamente não foram feitos pra sentar
2 – Façam gentilezas aos anfitriões, como levar o cachorro
pra passear, cozinhar, trazer flores ou pequenos agrados
3 – Nunca tratem as pessoas que trabalham na casa como se
fossem seus empregados, aliás, não tratem mal nem os seus próprios empregados
4 – Não fiquem horas no banho, não faça barulho, não fale
alto, não faça apenas o que é divertido pra você (como jogar vídeo game quando
os anfitriões não estão a fim de fazer isso), tirar coisas do lugar e não
colocar de volta, não faça interurbano, não dê trabalho
5 – Não usem o
computador como se estivesse em casa, não usem o computador ou iphone e deixem o
dono da casa isolado enquanto conversam com amigos de outros locais via web, se
precisar conferir e-mail, peçam e usem apenas o tempo pra conferir e responder
os mais urgentes
6 – Circularem de pijama pela casa dos outros é um absurdo,
vistam roupas cotidianas antes de sair do quarto
7 – Respeitem os horários e hábitos do lugar, se o almoço
for servido às 13 horas, esteja pronto às 13 horas
8 – Não falem palavrão à mesa de jantar (eu já v acontecer
na frente de uma família toda e é uma vergonha alheia)
9 – Não combinem passeios ou compromissos demais, fica
cansativo e causa mau humor
10 – Não façam programa que exija que uns esperem os outros,
isso nunca dá certo
11- Gente que não tem os mesmo gostos/hábitos não devem sair
juntos: Esportistas x Nerds, Baladeiros x tímidos/nerds, matutinos x boêmios,
consumistas x anticomsumistas
12 – É péssimo nunca ter dinheiro pra pagar suas contas, não
deixe seu anfitrião pagar tudo o tempo todo, viaje ao menos com o dinheiro da
alimentação, sempre que possível tente dividir a
gasolina/estacionamento/mercado
13 – Não é porque o anfitrião vai pagar a conta do
restaurante que você deve pedir o prato mais caro ou o vinho mais fino, bom
senso com o dinheiro alheio faz bem
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Claro que existem algumas outras regrinhas básicas, que
variam de lugar pra lugar, mas as mencionadas acima suprem bem as necessidades
pra que suas visitas sejam agradáveis tanto pra vocês, como aos donos da casa.
De minha parte, já aprendi a lição: Na minha casa agora só
entra amigos íntimos e pessoas bem educadas.
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