segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Lar Doce Lar - Minha Casa, Minhas Regras





 Eu amo a minha casa.

 Amo muito. Se pudesse não saia de casa, tudo o que precisasse estaria aqui, mas isso é utopia então vamos fingir por um momento que eu não sou um caramujo.

 O caso é que gosto tanto da meu cantinho porque aqui fico a vontade, de pijama o dia todo, fazendo (ou não) minhas coisas, com tudo a mão e esse é um dos motivos d’eu não visitar tanto as casas de amigos ou conhecidos.

 Esse é o primeiro deles, o segundo é que eu morro de medo de incomodar quem quer que seja, mesmo quando de um convite dado de coração, tenho receio de incomodar a pessoa com meus hábitos e minhas restrições.

 Tenho alguns problemas de saúde que me impedem de comer qualquer coisa e me obrigada a ter certas rotinas diárias e dieta, então não gosto que alguém se sinta obrigada a ter isso à disposição pra mim, mesmo se oferecendo e me convidando.

 Ainda outro motivo é um trauma de infância que me fez perceber que nem sempre um convite quer dizer que alguém queira realmente que você freqüente sua casa.

 Quando eu tinha uns 11 ~ 12 anos, recém chegada do interior onde morei dos 4 aos 10 anos, fiz amizade com duas irmãs mais ou menos da minha idade: Tati e Lu.

 Eu me dava melhor com a Lu por sermos mais parecidas em assuntos e comportamento, a Tati era mais ‘mocinha’, ‘menininha’, ‘delicadinha’ e como eu sempre fui... erm, eu, não tinha tanto papo com ela, mas gostava de conversar quando estávamos perto porque nunca fui do tipo de isolar alguém num bate papo.

 Mesmo achando que ela não ia com meus cornos... o.o’

 Enfim, algumas tardes as visitava em casa, porque morava com meus avós e acreditem, não havia NADA pra se fazer na casa deles, na época nem TV em casa meus avós tinham, por isso não as convidava pra me visitarem ao invés de ir até a residência delas.

 Então algumas vezes eu ia até lá pra conversar e brincar um pouco. Numa das vezes estavamos conversando na cozinha quando a mãe delas (outra que aparentemente nunca foi com meus cornos) comentou pras filhas ‘sobre fazermos poucos os passos na casa do próximo pra que ele não venha a nos odiar’.

 Sim, conhecia esse texto, e sim, eu sabia que era uma (in)direta pra mim porque ela sabia muito bem que eu conhecia o texto.

Me senti com uma pedra no estomago aquele dia, a sensação ruim de estorvo, mesmo nunca aceitando almoçar ou lanchar, evitando passar muitas horas por lá, respeitando horários e limites e até volume de voz eu sempre tive o cuidado de controlar... Mas claro que não bastou, pelo jeito estava passando tempo demais em companhia das filhas dela (até então as únicas amizades que havia feito recém chegada da cidade onde morei) e desde esse dia só voltei à casa das duas pra levar ou receber algum recado ou pra algum tipo de reunião.

 Acredito que a mãe delas era uma adulta infeliz sem tato que devia tomar mais cuidado ao falar sobre as regras da casa na frente de uma criança, pois se não me queria lá, podia conversar com as filhas e aos poucos as duas me afastariam. Seria pelo menos humilhante pra mim, embora não menos triste.

 A segunda vez foi durante uma visita a casa do meu pai, onde ele mora com a segunda esposa. Estávamos eu e minha irmã fazendo criancices (eu com oito anos e ela com 13), pulando no sofá, ok, admito que passamos do limite, mas da maneira infantil que víamos estávamos na casa do meu pai também.  Obviamente a filha da segunda esposa, da idade da minha irmã, não achava assim. Ela nos olhou feio e disse pra pararmos, pois não estávamos na nossa casa pra fazer o que quiséssemos.

 Nunca contei pro meu pai o que ela fez, acho que ele não se interessaria pela maneira como éramos tratadas de modo geral, já que se morava ali agora era porque havia trocado a nossa família por aquela.

 Depois dessas experiências desagradáveis passei a controlar ainda mais as visitas a amigos e quando convidada eu até apareço, mas tento passar por invisível mesmo, dar o mínimo de trabalho e voltar logo pra minha casa, onde sei que não serei um estorvo.

 Exatamente por isso fico tão incomodada com visitas mal educadas e por causa do trauma não consigo dizer umas boas verdades pra essas pessoas quando elas são desagradáveis debaixo do meu teto.

 É minha máxima não maltratar alguém que esteja entre minhas paredes, pois sei o que é ser maltratada estando em casas alheias, por essa mulher, pela filha da segunda esposa do meu pai... traumas, traumas.

 Por manter o hábito de tratar decentemente as pessoas que me visitam, já tomei muito na cara: Já tive meus móveis chamados de ‘merda’ por uma burguesinha morta de fome da zona sul, que inclusive já me havia mandando enfiar minha almofada no... vocês sabem onde. O que ignorei prontamente pra não humilhá-la mais do que a vida já se encarregou de fazer.

 Já tive uma asiática mal educada cobrando a agilidade no meu esposo na cozinha, durante um final de ano de calor insuportável no Rio, quando ele cozinhava o jantar pra todo mundo e ainda fazia intervalos levando suco, sorvete e lanches pra gente. A criatura rinocerônica teve a pachorra de ir até a cozinha, olhar no relógio e dizer ‘Tô com fome, Guilherme, vamo! Tá demorando!’


 E  só soube disso depois que ela sugeriu que eu não servia pra ser mais amiga, então meu esposo me contou essa pérola de educação dela aqui na minha casa, onde a recebemos mais de 4 vezes! Educação definitivamente é artigo de luxo que quase ninguém compra esses dias.

 A última vez que passei por aborrecimento foi recentemente, onde recebi alguém que tardiamente soube que não gosta de mim. Vejam bem, a pessoa visitou a minha casa, me fez perder tempo, cozinhar, tentar agradar (mesmo passando por uma crise de dor) e não gostava de mim. Sério, essa eu quero esbofetear muito.

 Quem me conhece, que é amigo intimo mesmo, eu convido pra minha casa e se convidei... colega! Você é muito querido! Porque não abro minhas portas pra qualquer pessoa e quando abro, tenho por hábito tratar muito bem.

 Invento de cozinhar, tento manter a pessoa confortável, fazer compras... e o Guilherme é ainda mais hospitaleiro do que eu o que torna tudo ainda mais receptivo pra quem nos visita.

 Então, creio que se a pessoa não vai com a minha cara, pra que se dar e me dar (principalmente) a esse trabalho? E justamente depois d’eu prometer a mim mesma que nunca mais receberia gente estúpida em meu lar?

 Lar é um lugar sagrado, é onde se repousa, medita, cuida da vida... entrar na casa de alguém quando não gosta dessa pessoa é deturpar o lugar, é fazer com que ela engula sua presença no única lugar onde ela se protege de gente como você.

 Então, a tia Fran da uma dica de ouro: Se não vai com os cornos da pessoa, faça como eu – Não a visite. Não coloque os pés em sua casa, não a obrigue a suportar seu comportamento desagradável e sua presença dispensável.

 Resolvi postar esse assunto porque recentemente estava lendo uma revista Época com dicas de como se comportar na casa dos outros, durante visitas de férias, e me lembrei desse episódio... Como sei que são dicas preciosas e que todos deviam seguir, vou postar aqui pra vocês e acrescentar algumas de minha autoria:


 O que Fazer na Casa dos Outros:

 1 – Tratem a casa dos outros como um palácio, não deixem o banheiro molhado ou cheio de cabelo na pia, cinzeiros sujos (ou não fumem na casa se os moradores não forem fumantes), não sentem nos braços do sofá, não subam em camas ou sofás de tênis ou sapatos, não larguem copos ou pratos em todos os cantos, arrumem sua próprias camas, não sentem em bancadas de cozinha ou outros lugares que obviamente não foram feitos pra sentar



 2 – Façam gentilezas aos anfitriões, como levar o cachorro pra passear, cozinhar, trazer flores ou pequenos agrados

 3 – Nunca tratem as pessoas que trabalham na casa como se fossem seus empregados, aliás, não tratem mal nem os seus próprios empregados

 4 – Não fiquem horas no banho, não faça barulho, não fale alto, não faça apenas o que é divertido pra você (como jogar vídeo game quando os anfitriões não estão a fim de fazer isso), tirar coisas do lugar e não colocar de volta, não faça interurbano, não dê trabalho

  5 – Não usem o computador como se estivesse em casa, não usem o computador ou iphone e deixem o dono da casa isolado enquanto conversam com amigos de outros locais via web, se precisar conferir e-mail, peçam e usem apenas o tempo pra conferir e responder os mais urgentes


 6 – Circularem de pijama pela casa dos outros é um absurdo, vistam roupas cotidianas antes de sair do quarto

 7 – Respeitem os horários e hábitos do lugar, se o almoço for servido às 13 horas, esteja pronto às 13 horas

 8 – Não falem palavrão à mesa de jantar (eu já v acontecer na frente de uma família toda e é uma vergonha alheia)

 9 – Não combinem passeios ou compromissos demais, fica cansativo e causa mau humor

 10 – Não façam programa que exija que uns esperem os outros, isso nunca dá certo

 11- Gente que não tem os mesmo gostos/hábitos não devem sair juntos: Esportistas x Nerds, Baladeiros x tímidos/nerds, matutinos x boêmios, consumistas x anticomsumistas

 12 – É péssimo nunca ter dinheiro pra pagar suas contas, não deixe seu anfitrião pagar tudo o tempo todo, viaje ao menos com o dinheiro da alimentação, sempre que possível tente dividir a gasolina/estacionamento/mercado

 13 – Não é porque o anfitrião vai pagar a conta do restaurante que você deve pedir o prato mais caro ou o vinho mais fino, bom senso com o dinheiro alheio faz bem

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 Claro que existem algumas outras regrinhas básicas, que variam de lugar pra lugar, mas as mencionadas acima suprem bem as necessidades pra que suas visitas sejam agradáveis tanto pra vocês, como aos donos da casa.

 De minha parte, já aprendi a lição: Na minha casa agora só entra amigos íntimos e pessoas bem educadas.



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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Boa Ação pra Quem?




 Acho muito bonito quem faz caridade, de qualquer tipo.

 Há quem prefira fazer caridade pros animais, no lugar de humanos, porque dizem que nós temos mais condições de nos defendermos do que um animal.

 Honestamente não entro nesse tipo de discussão, só acredito que precisa haver quem tome conta de humanos tanto quanto quem toma conta de bichos, porque somos todos seres vivos e necessitamos de cuidados.

 No caso dos animais de rua, muitos sofrem nas mãos de sádicos que tiram prazer torturando e tirando a vida de bichos indefesos. Alguns têm preferência maior por gatos, pelo simples fato de que é ponto passivo que felinos não são tão bem quistos.

 Provavelmente por sua postura independente, por roubarem pra comer, por sujarem os jardins com seus detritos fisiológicos, por miarem nos telhados quando estão cruzando... Enfim, a desculpa pra se maltratar gato forma uma lista imensa de papo furado pra quem não quer apenas dizer que é um perturbado que sente prazer sexual em torturar animais indefesos.

 Já ouvi absurdos de pessoas dizendo que não gostam de gatos porque eles são traiçoeiros. Bom, elas deviam conviver mais com humanos pra depois falar quem é traiçoeiro de verdade.

 Acredito que os gatos levam essa fama cruel por simplesmente se parecem mais com os humanos que os cachorros. 

 Pensem bem, quem é que suporta um amigo grudento, que fica na tua cola o tempo todo, te pedindo pra passear todo dia, etc, etc? Dependente de você. É fofo, é meigo, mas em padrões humanos chega uma hora que fica insuportável, não?

 Sejam sinceros, no caso dos caninos eles são assim e como cachorros funcionam bem e sim, eu gosto muito de cachorro. Mas é preciso espaço e disposição pra se ter um, pra gastar suas energias e essas são duas coisas que eu não tenho.

 Por isso prefiro ter gatos, já que moro em apartamento e não gosto de sair de casa o tempo todo, o que dificulta ter como bicho de estimação um cachorro, que precisa passear pra fazer suas necessidades e consumir energia.

 Isso e porque gatos parecem mais com pessoas: te ligam às vezes, batem um papo, saem... depois voltam pro seu canto até a hora em que ambos sintam falta da companhia um do outro e repetem o processo.

 Alguns seres humanos gostam de ter o controle por isso os gatos os incomodam, simples assim.

 Mesmo amando gatos e admirando quem se dispões a apanhá-los na rua pra tratar e cuidar, abomino certos tipos de auto denominados ‘gateiros’, que pra mim estão mais pra colecionadores.

 Não falo dos gateiros sérios que pegam o bicho na rua, cuidam das feridas, castram, medicam e conseguem (lutando muito) um lar pra esses gatinhos. Esses eu respeito e muito! Há que se ter muito amor e dedicação pra fazer um trabalho assim.

 O tipo de gateiro que não suporto, são esses que ficam acumulando/colecionando gatos como se fossem objetos, a lá velha dos gatos dos Simpsons.




 Não sei se por carência, por problemas psicológicos, se pra pagar de bons moços ou se são malucos mesmo, mas já vi figuras assim e elas me enojam.

 São daqueles tipos que pegam um gato na rua, de preferência aparentemente saudável e levam pra casa, só que a casa é um apartamento. Chegam lá, enfiam o gato junto com mais vinte num cômodo ou área de serviço e com poucos recursos pra alimentá-los a comida fica escassa, os bichos magrelos e sem acesso ao resto da casa porque: ‘oh! A casa não pode ficar com pelo de gato, os móveis não podem ser arranhados, eles não podem ficar todos juntos perto porque brigam’.

 Aí, faz um rodízio muito curioso: Soltam dois ou três gatos pra frequentarem a área comum da casa. Bom, geralmente são os mesmos gatos (os preferidos), nunca é um rodízio no uso correto da expressão.

 Esses 'gateiros' mal têm dinheiro pra comprar ração pros gatos, então quando um adoece o que eles fazem?

 Nada.



 O gato tá caindo aos pedaços com claros sinais de doenças sérias e os tais ‘gateiros’ simplesmente os deixam definhar, porque não tem dinheiro pra levar pro veterinário, dizem que preferem manter os felinos em casa pra morrerem confortavelmente do que na rua. Mesmo sem cuidados especializados.

 Morte é morte em minha opinião. E se não tem como manter um animal confortável e saudável, não tenha um monte deles. Até porque um gato doente não estará confortável nunca, mesmo dentro de quatro paredes.

 Até aí já é absurdo, mas a gente fica quieto já que não adianta jogar pérolas aos porcos.

 Mas a coisa chega ao ponto do absurdo quando esses ‘gateiros’ fazem protestos contra outros colecionadores que juntam bichos como quem junta ferro-velho, sem condição de cuidar, mas quando um dos gatos deles ficam doentes o que fazem? Pedem doação nos facebooks/twitters da vida!

 ...Sério. Me dá nojo.

 Fazer boa ação com dinheiro alheio é fácil. Muitas das maiores boas ações, aliás, forem feitas sozinhas, nem sempre todo mundo ficou sabendo. É um ato modesto e discreto e em sua maioria se faz com condição própria.

 Porque, queridos, se estão usando o dinheiro alheio pra cuidar dos seus bichos, a boa ação não é de vocês, é de quem doou.

 Mais uma vez, não sou contra gateiros sérios, mas sou contra gente oportunista que usa a boa vontade alheia pra se fazer de ‘santo e humano generoso’.




 Já cheguei ao cumulo de ver gente pedindo dinheiro pra tratar pulga do gato. O que sempre considerei como higiene e isso é responsabilidade do dono, assim como o banho do animalzinho.

 E convenhamos, se a pessoa não tem dinheiro pra comprar remédio anti-pulgas, como vai ter dinheiro pra compra ração pra dezenas de gatos?

 Minha admiração e respeito aos gateiros sérios, que muitas vezes abrem mão de seus confortos e coisas supérfluas pra manter e cuidar de seus gatinhos. Esses que arcam com a maioria das despesas e só pedem ajuda em ultimo caso, e em muitos desses casos é através de promoções e sorteios de artigos pra que não fiquem na base de esmola.

 E meu desprezo por colecionadores de gatos, que usam da boa fé das pessoas, tirando dinheiro delas apenas pra manter a fama de ‘seres humanos exemplares’.



 Cortesia se faz com chapéu próprio, não com chapéu alheio.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Sorriso da Menina Feia





 Se tiver algo na minha vida que eu posso afirmar é de que não sou uma mulher bonita.

 Não entendam essa afirmação como uma falsa modéstia em busca de elogios, porque não mendigo palavras doces e delicadas. Ao contrário, confio mais em pessoas sinceras, que por vezes podem magoar pelo excesso e por talvez alguma falta de tato, do que nas doces demais.

 Não dá pra ser amável, delicado e complacente o tempo todo e quem age sempre assim me causa desconforto, pois nunca vejo sinceridade por trás de atos tão perfeitamente generosos. Somos todos imperfeitos e prefiro contemplar, por vezes, a imperfeição de meus conhecidos do que a falsa perfeição, tendo que essa é impossível.

 Também por isso sou sincera quando falo sobre a certeza a cerca de minhas feições.

 Vejam bem, não sou o que a maioria das pessoas comuns reconhece como ‘garota bonita’. Tenho pouca altura, menos que um metro e sessenta centímetros, sou parda, herança de avô negro e avó caucasiana, detalhe que por traços preconceituosos existente em toda cultura já me garantem o título da não tão bela.

 Uso óculos por causa de uma miopia+astigmatismo, o que me impede de recorrer a lentes de contato quando uma roupa social implora por elas. Tenho cabelos cacheados, finos e ralos e justamente por isso não costumam ter força suficiente pra crescer.

 Por causa de dores terríveis de enxaqueca, me mediquei a mando de um neurologista, que sem me contar das reações adversas, me indicou um medicamento que me fez ganhar peso, estou uns oito quilos a mais do ‘ideal’ pro meu tamanho. O que pra indústria da moda e visão recente humana é um sacrilégio! Tenho ombros de menos e busto de mais, o que me causa mais problemas na hora de encontrar roupas do tamanho certo.

 Não estou contanto mazelas, entendam, o que estou relatando são os motivos que me levam a compreensão de minha figura e a aceitação, de bom grado, de que não nasci pros holofotes.

 Posso, e vivo, bem com isso. Aprendi desde cedo que jamais ganharia qualquer coisa pelo meu belo par de olhos azuis ou sorriso delicado.

 Aliás, meu sorriso nunca foi tão bem aceito por segundo, terceiros ou quartos. Quando sorria quase nunca era correspondida.

 Talvez as pessoas não me enxergassem. Era uma criança miúda pra idade e meus cabelos ralos não cresciam o suficiente pra emoldurar meu rosto nos padrões desejados pela sociedade já meus olhos castanhos escuros não chamavam qualquer atenção.

 Acho que foi por isso que depois de um tempo parei de sorrir pra estranhos. Nem mesmo pra crianças.

 Aprendi a lição bem cedo.

 Quando tinha uns quatro anos, recém chegada ao interior de São Paulo, fiz amizade com as filhas de uma vizinha. Uma delas, um ano mais nova que eu, acabou se tornando minha melhor amiga de infância, éramos coladas. Muitos perguntavam se éramos irmãs, quando nos viam juntas, mesmo sua pele caucasiana e olhos azuis provando o contrário logo a primeira vista.

 Numa certa tarde, atravessei o quintal de terra vermelha até a casa que ficava nos fundos do terreno, onde minha amiga morava com seus pais e irmãos, entre eles alguns mais velhos e uma mais nova.

 Lembro que uma de suas irmãs mais velhas estava sentada no chão de cimento batido, em frente a varandinha da casa. Ela conversava com a mãe, sobre algum assunto de adulto que pela pouca idade eu não entenderia, mesmo que prestasse atenção em algo, assim que me aproximei das duas.

 Perguntei a mãe se a minha amiga estava e ela foi chamar a pequena dentro de casa. Fiquei sozinha com a irmã mais velha.

 Ela era uma mulher de rosto forte, algumas sardas e olhos quase verdes, uma mulher comum, mas de traços interessantes. Era a irmã mais velha, por parte das mulheres, casada e com uma filha.  Recordo que ela tinha uma personalidade forte, pelo que suas irmãs me contavam, mas nada se mostrava bizarro, aquele dia.

 Sem assunto e com o silêncio que me deixava sem jeito do lado da irmã mais velha da minha amiga, alguém com quem pouco falei e por isso não sabia como agir na presença, resolvi demonstrar com um simples gesto um sinal de simpatia. Bom, o que se pode chamar de simpatia vindo de uma criança de quatro anos de idade.

 Não sei o que tinha no sorriso mudo que pode ter incomodado tanto àquela mulher, mas o que ganhei em resposta ao gesto foram algumas das palavras mais duras que já recebi em minha infância, palavras que reconheço, ajudaram a moldar meu comportamento perto de estranhos.

 Ela me encarou com aqueles olhos quase verdes, cabelos louros num tom quase palha e sardas quase escuras. Com aquele olhar irritado me perguntou:

 -- O que foi, menina feia? Menina horrorosa!!  

 Eu continuei muda, porque não sabia como responder àquilo, porque não esperava aquela reação e porque não entendi o que havia feito de tão ruim pra receber tais palavras por um simples sorriso. Sinto, até hoje, meus rosto ficando quente de vergonha, engolindo calada a agressividade enquanto a mãe dela voltava com a minha amiga.

 Sei que não chorei, por vergonha de chorar na frente da irmã mais nova e ter de explicar o motivo, mas senti os olhos arderem e lembro que ainda ouvi atrás de mim, enquanto me afastava com a minha amiga, algo sobre ‘quem era aquela menina feia, negrinha, que tava ali’ e a mãe responder ‘que era a filha da vizinha nova’.

 Desde que aquele dia eu percebi que sorrisos podem ofender, se forem sorrisos de pessoas que não se encaixam no padrão de beleza estipulado. Percebi que devemos guardar nossos sorrisos pra quem nos conhece e nos tem carinho.

 Pros estranhos desejo variavelmente um ‘bom-dia, boa-tarde ou boa-noite’ e nada mais, sempre com educação, mas nunca com expectativa nem de resposta.

 Minha mãe, a quem não me lembro se já contei essa história, sempre se ofende quando alguém não responde seus ‘bons-dias’ e nessas horas eu paro, lembro daquela tarde e respondo que é por isso que quase não falo com pessoas que não conheço.

 E perguntas ecoam na minha cabeça sobre qual teria sido a reação daquela vizinha se eu me encaixasse nos padrões sociais de beleza? Consciente de que nunca saberei a resposta, continuo o que estou fazendo e guardo comigo um último pensamento:


 Pessoas estranhas não gostam de sorrisos de ‘meninas feias’.




domingo, 22 de janeiro de 2012

Gatos: Pobres, Porém Livres...






Quando pequena não tive muito contato com gatos, acho que um dos principais motivos foi por minha mãe não simpatizar muito com eles.

 Ela era do time que achava que gatos são ‘ladrões e traiçoeiros que entre um carinho e outro te arranhava na maldade’. Bom, acho que muitas pessoas pensam assim até hoje, por isso não posso culpá-la por julgar assim um animalzinho, é um pré-conceito muito comum, diga-se de passagem.


 Passei anos da minha vida tendo apenas cachorros e gosto demais deles! Prefiro os de grande porte, mas já tive de vários tamanhos. Porém que mais me cansaram eram os menores, por serem mais agitados e eu, como uma humana já adulta muito quieta e que gosta da solidão planejada, não me adaptei a toda essa energia e marra de um cachorro de pequeno porte.

 Minha primeira experiência com um gatinho foi quando eu tinha uns sete, oito anos e sinceramente desaconselho os pais a darem um gatinho pra uma criança nessa idade, se os prórpios pais já não forem amantes de bichanos.

 Criança tem muita energia, quer gastar, brincar, rolar... gatinhos, apesar de serem curiosos e brincalhões, ainda preservam em si o comportamento felino padrão: independência e auto respeito como individuo.
 O que pra uma criança é interpretado, assim como por muitos adultos, como uma espécie de desprezo: ‘Gato não gosta de gente, o gato é interesseiro, o gato só gosta da casa’.

 Ouço isso o tempo todo e sempre que escuto percebo que tenho diante de mim uma pessoa completamente ignorante, se equiparando com o mesmo tipo de gente que diz que gatos transmitem asma (por causa do ronronar). Às vezes até tento conversar e explicar que não é bem assim, que precisam ler mais a respeito, conversar com quem realmente tem um gato pra explicar o comportamento deles e parar de ouvir apenas opinião de quem odeia gato e só porque tem um cachorro acho que gato é uma praga.


 Um amor não anula o outro. Aliás, amor não anula NADA, agrega.


 Um amante de cachorro, passarinho, peixe, cavalo, dizer que odeia gato me prova que não gosta de nada. Nem de gente. Gato é ser vivo, sente dor e sofre como qualquer outro animal e assim como outro bicho tem suas características e definições próprias.

 ...Como as pessoas em geral, em países diversos, em várias culturas.


 Eu gosto de cachorro, eu gosto de gato, eu gosto de bicho.

 Não simpatizo com chimpanzé, mas nem por isso acho que temos que maltratar, bater, matar.


Me tornei, depois de adulta, uma apreciadora de felinos alguns anos após me casar e me mudar pro Rio de Janeiro. Depois de passar pela péssima experiência de ter um filhote de Cocker num apartamento (raça linda, carinhosa, mas muito agitada e elétrica pra famílias que moram em apartamentos) uma amiga me disse que deveríamos ter um gatinho, que um felino combinaria mais conosco, com nosso ritmo de casal sem filhos.

 Não pensei muito no assunto até uma noite que chegamos em casa, o Gui e eu, depois de um passeio no shopping.

 Ouvimos um miado estranho, por volta das dez da noite, na rua do nosso prédio. Estávamos no terceiro andar e não reconhecemos os miados como de um gato, por serem diferentes (mais exóticos X’D) dos que já tínhamos ouvido... Após minutos acreditando que eram garotos brincando na rua, ficamos em dúvida por causa da hora. Então descemos e o Gui foi verificar, percebendo que a rua estava vazia.

 Debaixo de um carro ele avistou um gatinho, que na época tinha um três meses, miando assustado. Despertamos a vontade de tirar ele dali, por medo de que alguém pudesse maltratar o bichinho. Subi e peguei um pedaço de pão, molhei no leite que o Gui usou como isca pra chamar a atenção do gatinho... funcionou. Depois de alguns minutos, desconfiado, ele finalmente saiu e seguiu o pãozinho até a portaria do prédio...

 Esse gatinho foi adotado por nós e foi batizado com o nome de Max.


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Max Brincando com Barbante e Posando pra Foto




O Max não viveu muito tempo, infelizmente. Foi envenenado por algum vizinho quando nos mudamos pra um condomínio de casa. Até hoje não sabemos quem fez tamanha maldade, mas o Max não foi o único: essa pessoa matou praticamente todos os gatos do condomínio...

 Max morreu com seis meses de idade.

 Depois do Max, percebemos que não conseguiríamos viver sem outro felino. Eles nos fazem companhia sem nem soltar um miado, só por estar perto, encostando seu corpinho quente no nosso quando estamos no sofá vendo tv, se esfregando pra dar e receber carinho, ou distraído com seus próprios assuntos e até mesmo nesses momentos nos fazem rir e desfrutar de toda a sua felinidade demonstrada através de gestos simples como se limpar... lambendo as patinhas dianteiras e ‘banhando’ a carinha...


 Adotamos então mais 3 gatinhos: Louise, Domi (Primeiro) e Puck.


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Louise, Domi e Puck



A Louise era irmã do Domi, dois gatinhos de duas semanas... mal sabiam usar a caixinha. Ela era mais esperta que o irmão e aprendeu isso no primeiro dia, o Domi demorou mais e sempre era derrubado por ela nas brincadeiras. A Puck era maior, apaixonada pelo Gui... o seguia de um lado pro outro...

 A Louise morreu pouco mais de uma semana após chegar em casa...

 A encontrei caída e estática perto do arranhador, com a coluna inclinada pra trás, quase se dobrando ao meio, os olhos fixos num único ponto, imóvel, mas ainda viva. Era quase meia-noite quando corremos pra uma clinica veterinária. Ela morreu cerca de uma da manhã... nas mãos do Gui.

 Dois dias depois foi a vez do Domi (Primeiro), morrer da mesma doença (genética, pelo que nos contou a veterinária).

 A Puck, depois de alguns dias, se tornou agressiva... atacou o Gui, mordendo e arranhando. Ela não se adaptou a casa ou a nós, decidimos dá-la a uma conhecida da minha mãe, que vivia sozinha e queria a companhia de um gatinho. Lá a Puck teve uma casa e uma dona só pra si. Cresceu, engordou e passou bem.


 Mais alguns meses e nós nos tornamos donos de um persa, o Domi (Segundo).

Esse era apaixonado pela minha mãe, que depois do Max, passou a ver gatos de uma maneira completamente diferente do olhar ignorante de quem não tem contato algum com o bichinho.


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Domi (Segundo) e Gui



O Domi a seguia por todo lugar e era mais falante com ela... Ele ficou conosco por quase dois anos.

 Infelizmente desenvolvi uma alergia ao pelo fininho do Domi e quando nos mudamos pra um apartamento novo, um lugar mais fechados que poderia me causar crises maiores, demos o gatinho pra esposa de um conhecido, que era louca por ele. Da ultima vez que tive noticias, o Domi  tinha mais mordomias que o marido e dividia a cama com os dois! XD

 E agora temos o Falcor, um gato de grande porte, que não me causa crise alérgica (nem a algumas amigas que também tem alergia a pelo de gato, incrível! Oo).


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Falcor x3




  É como eu disse... quem teve gatos nunca vai se acostumar sem um felino pra cá e pra lá fazendo companhia.

 Noto que muitas pessoas que não gostam de gatos se apaixonam pelo Falcor quando vem aqui em casa, chegam a dizer que ele mais parece um cachorro de tão amável que é. É o tipo de felino que vira de barriga pra receber carinho e que responde a todo mundo com seus miadinhos roucos e manhosos.

 A verdade é que os gatos, assim como os humanos, têm personalidades distintas. Os cachorros também são assim, quem tem mais de um sabe que o primeiro nunca será igual ao segundo... Mas quando se trata de bichanos as pessoas são intolerantes, creditam a personalidade e a independência felina a uma falta de interesse em pessoas, mentalizam um ser que só se aproxima de quem quer pra conseguir algo.


 ...Como se bicho fosse gente.


 O que faltam pra essas pessoas (as que querem se tornar mais inteligentes e sair da mediocridade de padronizar tudo) são mais informações sobre esses seres tão maravilhosos que são os gatos!

 Por isso, resolvi dividir com vocês um pouco da minha história com eles e alguns vídeos que explicam mais sobre o comportamento desses bichinhos e as experiências de quem os tem e não conseguem mais viver sem essas quatro patinhas almofadadas e quentinhas fazendo massagem em suas barrigas enquanto assistem um programa na tv.


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O Gato Como Ele é: Depoimentos de Donos e Especialistas






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 Documentário Discovery Channel: Um Olhar Científico

 


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Falcor – Nosso Gatorro! XD

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 Espero sinceramente que esse post seja lido por pessoas relevantes e inteligentes, que possam ver os gatos com outros olhos.

 Naqueles que precisam continuar olhando os gatos da maneira como querem ver, refletindo os seus próprios defeitos como num espelho, não espero mudar nada.


...Só lamento a existência de seres humanos tão limitados.






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 "Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso. 

 Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis. 
 Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. 

 Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?

 Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? 

 Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. 

 O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. 

Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso. "Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. 

O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.

 O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige. 

 Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.

 Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. 

 O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. 

A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso , quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. 
 É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. 

 Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.

O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber. Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. 

 O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante , à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

 O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. 

 Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato! Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos.

 Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo. 

 O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.

 Lição de saúde sexual e sensualidade. 

 Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias.

 Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. 

 Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. 

 Lição de salto. 

 Lição de silêncio. 

 Lição de descanso.

 Lição de introversão. 

 Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra.

 Lição de religiosidade sem ícones. 

 Lição de alimentação e requinte. 

 Lição de bom gosto e senso de oportunidade. 

 Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.


O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem."

                                                                             
 -- Artur da Távola 



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