Ela era do time que achava que gatos são ‘ladrões e
traiçoeiros que entre um carinho e outro te arranhava na maldade’. Bom, acho
que muitas pessoas pensam assim até hoje, por isso não posso culpá-la por
julgar assim um animalzinho, é um pré-conceito muito comum, diga-se de
passagem.
Passei anos da minha vida tendo apenas cachorros e gosto
demais deles! Prefiro os de grande porte, mas já tive de vários tamanhos. Porém
que mais me cansaram eram os menores, por serem mais agitados e eu, como uma
humana já adulta muito quieta e que gosta da solidão planejada, não me adaptei
a toda essa energia e marra de um cachorro de pequeno porte.
Minha primeira experiência com um gatinho foi quando eu tinha
uns sete, oito anos e sinceramente desaconselho os pais a darem um gatinho pra
uma criança nessa idade, se os prórpios pais já não forem amantes de bichanos.
Criança tem muita energia, quer gastar, brincar, rolar...
gatinhos, apesar de serem curiosos e brincalhões, ainda preservam em si o
comportamento felino padrão: independência e auto respeito como individuo.
O que pra uma criança é interpretado, assim como por muitos
adultos, como uma espécie de desprezo: ‘Gato não gosta de gente, o gato é
interesseiro, o gato só gosta da casa’.
Ouço isso o tempo todo e sempre que escuto percebo que tenho
diante de mim uma pessoa completamente ignorante, se equiparando com o mesmo
tipo de gente que diz que gatos transmitem asma (por causa do ronronar). Às
vezes até tento conversar e explicar que não é bem assim, que precisam ler mais
a respeito, conversar com quem realmente tem um gato pra explicar o
comportamento deles e parar de ouvir apenas opinião de quem odeia gato e só
porque tem um cachorro acho que gato é uma praga.
Um amor não anula o outro. Aliás, amor não anula NADA,
agrega.
Um amante de cachorro, passarinho, peixe, cavalo, dizer que
odeia gato me prova que não gosta de nada. Nem de gente. Gato é ser vivo, sente
dor e sofre como qualquer outro animal e assim como outro bicho tem suas
características e definições próprias.
...Como as pessoas em geral, em países diversos, em várias
culturas.
Eu gosto de cachorro, eu gosto de gato, eu gosto de bicho.
Não simpatizo com chimpanzé, mas nem por isso acho que temos
que maltratar, bater, matar.
Me tornei, depois de adulta, uma apreciadora de felinos alguns anos após me casar e me mudar pro Rio de Janeiro. Depois de passar pela péssima experiência de ter um filhote de Cocker num apartamento (raça linda, carinhosa, mas muito agitada e elétrica pra famílias que moram em apartamentos) uma amiga me disse que deveríamos ter um gatinho, que um felino combinaria mais conosco, com nosso ritmo de casal sem filhos.
Não pensei muito no assunto até uma noite que chegamos em
casa, o Gui e eu, depois de um passeio no shopping.
Ouvimos um miado estranho, por volta das dez da noite, na
rua do nosso prédio. Estávamos no terceiro andar e não reconhecemos os miados
como de um gato, por serem diferentes (mais exóticos X’D) dos que já tínhamos ouvido...
Após minutos acreditando que eram garotos brincando na rua, ficamos em dúvida
por causa da hora. Então descemos e o Gui foi verificar, percebendo que a rua
estava vazia.
Debaixo de um carro ele avistou um gatinho, que na época
tinha um três meses, miando assustado. Despertamos a vontade de tirar ele dali,
por medo de que alguém pudesse maltratar o bichinho. Subi e peguei um pedaço de
pão, molhei no leite que o Gui usou como isca pra chamar a atenção do
gatinho... funcionou. Depois de alguns minutos, desconfiado, ele finalmente
saiu e seguiu o pãozinho até a portaria do prédio...
O Max não viveu muito tempo, infelizmente. Foi envenenado por algum vizinho quando nos mudamos pra um condomínio de casa. Até hoje não sabemos quem fez tamanha maldade, mas o Max não foi o único: essa pessoa matou praticamente todos os gatos do condomínio...
Max morreu com seis meses de idade.
Depois do Max, percebemos que não conseguiríamos viver sem
outro felino. Eles nos fazem companhia sem nem soltar um miado, só por estar
perto, encostando seu corpinho quente no nosso quando estamos no sofá vendo tv,
se esfregando pra dar e receber carinho, ou distraído com seus próprios
assuntos e até mesmo nesses momentos nos fazem rir e desfrutar de toda a sua
felinidade demonstrada através de gestos simples como se limpar... lambendo as
patinhas dianteiras e ‘banhando’ a carinha...
A Louise era irmã do Domi, dois gatinhos de duas semanas... mal sabiam usar a caixinha. Ela era mais esperta que o irmão e aprendeu isso no primeiro dia, o Domi demorou mais e sempre era derrubado por ela nas brincadeiras. A Puck era maior, apaixonada pelo Gui... o seguia de um lado pro outro...
A Louise morreu pouco mais de uma semana após chegar em
casa...
A encontrei caída e estática perto do arranhador, com a
coluna inclinada pra trás, quase se dobrando ao meio, os olhos fixos num único ponto,
imóvel, mas ainda viva. Era quase meia-noite quando corremos pra uma clinica
veterinária. Ela morreu cerca de uma da manhã... nas mãos do Gui.
Dois dias depois foi a vez do Domi (Primeiro), morrer da
mesma doença (genética, pelo que nos contou a veterinária).
A Puck, depois de alguns dias, se tornou agressiva... atacou
o Gui, mordendo e arranhando. Ela não se adaptou a casa ou a nós, decidimos
dá-la a uma conhecida da minha mãe, que vivia sozinha e queria a companhia de
um gatinho. Lá a Puck teve uma casa e uma dona só pra si. Cresceu, engordou e
passou bem.
Mais alguns meses e nós nos tornamos donos de um persa, o
Domi (Segundo).
O Domi a seguia por todo lugar e era mais falante com ela... Ele ficou conosco por quase dois anos.
Infelizmente desenvolvi uma alergia ao pelo fininho do Domi e
quando nos mudamos pra um apartamento novo, um lugar mais fechados que poderia
me causar crises maiores, demos o gatinho pra esposa de um conhecido, que era
louca por ele. Da ultima vez que tive noticias, o Domi tinha mais mordomias que o marido e dividia a
cama com os dois! XD
É como eu disse...
quem teve gatos nunca vai se acostumar sem um felino pra cá e pra lá fazendo
companhia.
Noto que muitas pessoas que não gostam de gatos se
apaixonam pelo Falcor quando vem aqui em casa, chegam a dizer que ele mais
parece um cachorro de tão amável que é. É o tipo de felino que vira de barriga
pra receber carinho e que responde a todo mundo com seus miadinhos roucos e manhosos.
A verdade é que os gatos, assim como os humanos, têm
personalidades distintas. Os cachorros também são assim, quem tem mais de um
sabe que o primeiro nunca será igual ao segundo... Mas quando se trata de
bichanos as pessoas são intolerantes, creditam a personalidade e a independência
felina a uma falta de interesse em pessoas, mentalizam um ser que só se
aproxima de quem quer pra conseguir algo.
...Como se bicho fosse gente.
O que faltam pra essas pessoas (as que querem se tornar mais
inteligentes e sair da mediocridade de padronizar tudo) são mais informações
sobre esses seres tão maravilhosos que são os gatos!
Por isso, resolvi dividir com vocês um pouco da minha
história com eles e alguns vídeos que explicam mais sobre o comportamento
desses bichinhos e as experiências de quem os tem e não conseguem mais viver
sem essas quatro patinhas almofadadas e quentinhas fazendo massagem em suas
barrigas enquanto assistem um programa na tv.
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O Gato Como Ele é:
Depoimentos de Donos e Especialistas
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Documentário
Discovery Channel: Um Olhar Científico
Falcor –
Nosso Gatorro! XD
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Espero sinceramente que esse post seja lido por pessoas
relevantes e inteligentes, que possam ver os gatos com outros olhos.
Naqueles que precisam continuar olhando os gatos da maneira
como querem ver, refletindo os seus próprios defeitos como num espelho, não
espero mudar nada.
...Só lamento a existência de seres humanos tão limitados.
***
"Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.
Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.
Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu.
Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?
Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele?
Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo.
O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula.
Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso. "Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade.
O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.
O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.
Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.
Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério.
O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago.
A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso , quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado.
É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.
O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se.
Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.
O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber. Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado.
O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante , à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.
O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências.
Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato! Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos.
Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.
O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.
Lição de saúde sexual e sensualidade.
Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias.
Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal.
Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular.
Lição de salto.
Lição de silêncio.
Lição de descanso.
Lição de introversão.
Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra.
Lição de religiosidade sem ícones.
Lição de alimentação e requinte.
Lição de bom gosto e senso de oportunidade.
Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.
O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem."
-- Artur da Távola
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